Culpar jogos. Até quando?

Deixo aqui as palavras de JM Trevisan, pois faço das dele, as minhas.

Discutiu-se tudo sobre a morte do menino e da família, menos a necessidade de se levar mais a sério distúrbios psiquiátricos. Toda reportagem diz “o menino era um garoto normal”. É? Como você sabe? O que é normal?

É a mania de achar que distúrbio psicológico significa ser locão e sair por ai descabelado e de cueca falando ao contrário.

Passei anos sofrendo com ansiedade e depressão e ninguém se tocou que eu precisava de tratamento. Porque eu era normal. Porque eu tinha uma familia legal. Porque estudava. Trabalhava. Porque nunca me faltou nada. E uma coisa nao tem a ver com a outra.

Enquanto ninguém se der conta disso, vamos continuar tendo casos assim, e vão continuar culpando os videogames, o RPG, a falta de fé, etc.- JM Trevisan

Eu jogo MMORPGs ruins

Eu jogo MMORPGs e assemelhados desde 2003. Mais ou menos nessa época, a Blizzard tinha recém lançado o World of Warcraft, jogo que já começou sendo pago e era muito bonito. Personagens altamente customizáveis, história bem bolada e rodava em quase qualquer computador com uma placa de vídeo de 64Mb. Eu queria muito poder jogá-lo, mas pagar estava fora dos meus planos juvenis e adolescentes. Eu não trabalhava, logo, não poderia assumir essa conta. Meu pai jamais teve cartão de crédito e mesmo que tivesse, não iria pagar pra eu jogar, fosse qual fosse o valor. Tendo isso em mente, eu comecei a ir atrás de alternativas grátis. Felizmente eu não precisei sucumbir ao Tibia, pois na minha frente surgiu um jogo de origem chinesa chamado Conquer.

Em 2003, o jogo tinha gráficos relativamente bons. Era (e ainda é) 2D, em contraste com o WOW, que era totalmente 3D. Tirando os gráficos, a vida era bem difícil. Ganhar experiência era praticamente um trabalho impossível, pois os bichos não davam quase nada e não havia quests. Pra subir de nível era necessário farmar muito e acumular gold. Sim, muito gold, porque qualquer drop (item ou moeda que cai no chão quando o inimigo é morto) raro era vendido a valores exorbitantes no mercado dado a porcentagem de gold que cada inimigo dropava ao morrer.

vane na moon platform

Aí eu joguei com essa guerreira até o nível 78. Nessa época, meados de 2005, era rei quem tivesse nível superior ao 90, equipamentos “super” e com atributos “plus” (Super Warrior Armor +1). Hoje existem quests diárias e de contexto que dão bastante XP. Existem poções e prêmios que aumentam a experiência ganha através dos bichos. Há treinamento offline e é possível pagar em dólares pra se ganhar experiência mais rapidamente ainda. Mesmo com todas essas melhorias feitas em 10 anos de jogo eu ainda acho o Conquer um jogo péssimo pra se jogar, subir de nível e ainda conseguir bons itens. Os drops são absurdamente pobres, o comércio agora é baseado essencialmente em dinheiro real, os servidores estão abarrotados de bots que ferram com todo o jogo. Isso sem contar nos brasileiros idiotas que fazem jus à fama que tem nos jogos online. E eu ainda jogo essa porcaria. E sabe porque?

minha lisbela

Porque assim não vicia. Assim eu não perco horas que eu dedicaria ao estudo, à escrever textos aqui no blog ou no meu Tumblr, ao desenho ou ao meu trabalho pra ficar jogando como uma pessoa sem vida. Se eu ganhasse dinheiro com o jogo, eu até concordaria passar muitas horas logada e farmando itens, porém nada ganho com ele. Ganhar dinheiro com jogo MMORPG (tendo lucro, obviamente) é comparável a mineirar Bitcoins, na minha opinião. Você tem um custo muito maior (energia elétrica, manutenção do computador, comida, etc) que o ganho representado pela venda de itens ou de contas (que na maioria dos jogos é ilegal).

O bom de ser grátis e ruim é que você joga pelo apego sentimental e não pelo progresso do seu personagem ou pela vontade de ser o gás da Coca Cola do seu servidor. Você até pode investir algum dinheiro, mas vai ser muito pouco em comparação à quem investe mais da metade de seu salário em itens e facilidades do jogo. Você vai ter uma relação de amor puro com seu jogo, onde ambos andam livres um do outro e depois de um tempo, voltam a se ver, a matar as saudades e prometer se ver novamente em breve. E você vai, vive a sua vida por meses e depois retorna normalmente.

Assim é minha vida com Conquer. Jogo pra desopilar e pra passar o tempo, mas nunca pra me imergir. Prefiro ficar imersa em atividades que impulsionem a minha carreira, meus estudos ou que sejam “lazeres criativos”.

Vida longa aos MMORPG de péssima qualidade!

Working man

Há meses atrás, eu estava ferrenhamente procurando um emprego. Visitei inúmeros sites de agências de emprego, inclusive até mandei currículo diretamente para as empresas de meu interesse. Depois de preencher formulários enormes em 3 sites, eu desisti de continuar procurando. Até que encontrei uma agência virtual bastante sábia (mas não me lembro mais o nome) que permitia “anexar” o currículo do LinkedIn na vaga pretendida. E fiquei pensando comigo mesma: porque diabos ninguém mais fez isso ainda?

Em toda minha vida profissional, sempre ouvi dizer que currículos precisam ser resumidos e conter somente informações relevantes. Partindo desse fato, eu acho o LinkedIn uma ótima ferramenta pra manter o currículo dessa maneira. Coisas como pretensão salarial e salários anteriores podem ser discutidos numa entrevista. Dados como CPF e RG só são relevantes na contratação. Dessa forma, não vejo a necessidade de exigir estes campos em um formulário. Aliás, as empresas deveriam abolir esse formulário gigantesco e pedir somente o LinkedIn do vivente. Muito mais prático e rápido, porque você preenche aquele formulário enfadonho apenas uma vez. E fazendo isso apenas uma vez, você tende a caprichar mais nas informações que estão ali.

As medias sociais (ou “xoxo medias“, como diria Azaghal) vieram pra ficar por um longo período na nossa vida virtual. Porque não aproveitá-las para relacionar-se com os demais habitantes deste planeta de forma diferenciada? Um perfil profissional e outros tantos perfis pessoais para satisfazer nossa necessidade de comunicação e interação social.

A forma como interagimos, atualmente, com sites é bastante breve. Poucos campos e poucos cliques nos separam de nosso objetivo. O tempo passa mais rápido na internet, portanto seria injusto manter o usuário mais de 5 minutos para preencher um monte de informações que nem sempre são relevantes, simplesmente para deixá-lo se candidatar para uma vaga de emprego. E o pior, ter que preencher esse formulários enormes em cada site de emprego é sempre chato e acaba fazendo com que muitos desistam da vaga. Ninguém quer ficar tanto tempo preso na mesma tarefa, principalmente os que viveram nos últimos 5 anos, onde a palavra de ordem é “produtividade”. Se a tarefa em questão te toma muito mais tempo do que deveria, ou ela é complexa demais e deveria ser quebrada em partes menores, ou ela é absolutamente horrorosa de se fazer. No caso dos formulários, eu fico com a segunda hipótese.

Fica aí meu desabafo e minha dica: aproveitem as facilidades do mundo moderno e agreguem as ferramentas que simplificam a vida das pessoas. Aumentem o número de canditados para vossas vagas de emprego (algumas eu vi que estão abertas há meses) e tratem de melhorar a forma como as pessoas interagem com vosso site. Reduzam, simplifiquem e mantenham somente o que for absolutamente relevante. Não sejam preconceituosos e permitam que nossa vida online seja mais fácil. Garantam informações sempre atualizadas e acuradas.

Permitam-nos usar o LinkedIn.

“I got no time for living, yes, I’m working all the time. Seems to me I could live my life a lot better than I think I am…”

Semancol

Decidi fazer uma sketch com um remédio que é recomendado desde sempre, para todas as pessoas de todas as idades, que precisam ter um pequeno (ou grande) choque de realidade. A dose e o tempo de tratamento vai de acordo com a necessidade ou com a gravidade da situação. Suspenda o remédio em caso de desaparecimento dos sintomas.

Semancol2

Quer mais? Me acompanhe no Tumblr e no DeviantArt.

*Estou aprendendo a usar o N900 pra desenhar.

Dorme agora, é só o vento lá fora…

Eu prometi pra mim mesma que não falaria sobre esse assunto aqui no blog. Prometi porque parece presunçoso e até arrogante, de minha parte, falar essas coisas. Entretanto, vejo que as relações nas famílias das pessoas que eu observo estão cada vez mais problemáticas. Ou o acesso à internet facilitou a regurgitação de “mimimi” por parte dessa galera que reclama demais de coisas que, com um pouco de maturidade, podemos ver facilmente como resolver. E como sabemos, o remédio que mais faz falta no mundo se chama “empatia”. Ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros antes de agir, pensar ou formular conceitos.

Há pessoas que já possuem idade adulta e ainda agem como adolescentes mimadinhos. Tal como parasitas, esperam que os pais corram atrás de tudo, comprem tudo e deixem tudo conforme seu refinado gosto de almofadinha. Acho revoltante esse comportamento, mas aí fico pensando que não existe somente um culpado nessa história. Uma criação torta pode acabar revelando um adulto que não vai conseguir viver com as próprias pernas sem ter muito sacrifício pela frente. Porém, ainda acho que certas coisas podem ser corrigidas sem muito sofrimento.

Saí de casa meio tarde até, com 24 anos. Amo minha família, cada um deles tem um lugar bem especial no meu coração que faço questão de guardá-los ali até o último dia da minha vida. O problema é que eles são muito ativos. Falam bastante (e alto), assistem televisão, mexem no computador, batem porta, brigam, brincam. Sempre foi assim e espero que seja assim pra sempre. O ruim é que me atrapalha na hora de estudar, de fazer um trabalho pra faculdade ou até mesmo algum freela. Eu não tenho grandes problemas com barulho, mas fala alta, portas que batem e televisão com volume alto me distraem facilmente. Eu ouço música, mas não gosto de volume alto, acho irritante. Aí a canção acaba não sendo o bastante para me afastar e me colocar em um plano alternativo onde eu só preste atenção no meu mundinho. E também, por fazer faculdade na área da computação, eu acabo servindo pra dar suporte o tempo todo com o PC da casa. E assim vai…

O motivo de eu sair foi porque eu precisava de paz pra poder trabalhar e estudar. A família é grande e a casa é pequena. Fica difícil exigir deles que ajam como monges tibetanos para que eu, unicamente e exclusivamente eu, possa estudar e trabalhar. Acho até meio ofensivo querer chegar e colocar esse tipo de banca. Tudo bem que eu moro aqui e é também a minha casa, mas tenho que respeitar a coletividade e os hábitos deles. Afinal, ninguém reclama dos meus.

Bom, aí entra aquela parte chata. As reclamações mais comuns que eu vejo por aí dos aborrescentes e até algumas pessoas em idade universitária é:
1) Não posso fazer o que eu quiser. Tenho que pedir permissão pra tudo.
Claro que não pode, tá pensando que tá onde? Na casa da Mãe Joana? E se tu tivesse um fedelho que quer fazer o que bem entende na casa que tu levou anos pra construir/comprar, mobiliar e deixar confortável. Deixaria ele fazer o que bem entende e ainda achar ruim? Acho que não.

2) Preciso dar satisfações pra onde vou, que horas volto e com quem eu volto.
Sério? Puxa, que problemão horrível! Um diálogo de, sei lá, 5 minutos pra dar essas informações e dizer “se precisar, me liga no celular” deve ser mesmo um sacrilégio. Capaz do parasita ainda ligar de madrugada pro pai/mãe ir buscar na festinha. Ora, por favor! Vá esfregar uma panela de polenta! Sabe o que significa dar essas informações como gente civilizada? Respeito, consideração e afeto.

3) Se eu fico longe de casa por um tempo fora do comum, meus pais ficam me ligando pra saber onde estou.
É, malditos paparazzis! Deixa de ser bunda mole e ligue pra avisar, quando vai ficar mais tempo na rua. Teus pais não querem te controlar como a marionete que você pensa que é. Estão preocupados com seu bem estar e com sua segurança. Mas é claro que é muito difícil para vossa majestade atender um telefonema de poucos minutos pra avisar que está bem, que está na casa de Fulano e que pretende voltar a tal hora.

4) Não me deixam ligar todos os meus eletrônicos e os deixar ligados pelo tempo que eu quero.
Fico imaginando que pra essas pessoas, recursos brotam. Simples assim. A eletricidade chega como quem não quer nada, vai passando pelos fios e quando menos se espera, a TV liga. Louco, né? Os mantimentos aparecem do nada nos armários, os remédios se repõem sozinhos nas prateleiras. Isso aqui não é Hogwarts, meu bem. Isso aqui é o mundo real, onde tudo custa dinheiro e trabalho. Onde o boleto de luz, água, IPTU, condomínio, aluguel e afins chega sempre todo mês. Aliás, se tem coisa que nunca erra o endereço da gente é cobrança. Então não, não pode ligar tudo ao mesmo tempo, deixar no standby a vida toda pra esperar que vossa majestade possa usar seus eletrônicos quando quiser. Ou liga apenas um, ou não liga nenhum.

5) Nunca compram o que eu peço de presente ou nunca entendem o que eu quero ganhar.
Essa realeza tem vida dura mesmo. Ô sacrilégio, chegar na hora de abrir o presente e ver que não era exatamente aquilo que você queria receber. Experimentou por acaso, uma coisa nova e revolucionária chamada “trabalhar”? É, ganhar salário no começo do mês pra comprar as suas quinquilharias. Não? Então feche essa latrina que você chama de boca e cale-se. Já dizia o ditado “cavalo dado não se olha os dentes”. Isso significa que você não deve reclamar de um presente ganhado, pois é uma bruta falta de educação e gratidão de sua parte por um ato que teve como origem, tentar agradar você.

6) Sempre reclamam do meu quarto, dizem que está sempre bagunçado.
Você não precisa ter TOC com organização, mas é bom manter seu quarto em ordem. Isso vai te ajudar no futuro, quando tiver responsabilidades maiores. Eu não sou um exemplo de organização, mas tive que aprender muito disso pra sobreviver sozinha. Eu já vivi a experiência de esquecer de pagar a conta de luz, ter a energia cortada e só tê-la religada no dia seguinte e com sorte. Quando essas coisas acontecem, a gente aprende na marra. Aprendemos a pensar adiante, a nos prevenir e manter nossas responsabilidades em dia.

7) Me cobram constantemente dedicação com meus estudos.
Nosso sistema educacional é arcaico, devo concordar. É complicado ser um peixe e ser constantemente julgado pela capacidade de subir em árvores. Acontece que, mesmo assim, se você não estudar as disciplinas propostas e tentar extrair delas o máximo de aplicação na vida real, você vai remar contra a correnteza até o final de seus dias. Nem vai passar no vestibular, só pra começar. Vagas que paguem bem e necessitem apenas do ensino médio, só em concurso público. Que é disputado e tem prova sobre aquilo que você deveria ter aprendido no colégio. Não adianta, estudar é preciso. Nos enobrece e nos torna pessoas donas de um julgamento muito melhor acerca dos assuntos que nos rodeiam. Você não precisa, necessariamente, de uma faculdade pra ser uma pessoa de sucesso, taí Bill Gates que não me deixa mentir. Entretanto, você vai precisar de muita dedicação e muito estudo daquilo que você quer ser. Bill Gates construiu uma fortuna em cima de sua ótima inteligência, perspicácia e capacidades empreendedoras. Na dúvida de suas habilidades, estude. Pode ser que, em algum semestre da faculdade, você descubra algo bom o bastante para fazer a diferença no mercado tão competitivo que temos hoje.

8) Quero fazer uma aula de <insira atividade aleatória>, mas meus pais não querem pagar.
Um ser humano em fase adolescente/adulta custa, por baixo, pelo menos R$900,00 mensais. Não é porque você não paga ou não vê o dinheiro, que não custa absolutamente nada. Você vive de luz? De amor? Seu computador roda por engrenagens? Creio que não. Se a aula que queres fazer não irá te acrescentar profissionalmente, isso pode esperar, sim. Pode esperar você arranjar um emprego e pagar por isso e por todas as outras coisas que quiser.

Essas são apenas alguns itens, pois já ouvi asneiras piores. Rebeldia não ajuda em nada, só piora as coisas. Não adianta se rebelar contra coisas que não são passíveis de rebelião. É muito melhor tirar proveito dessas lições, amadurecer e enxergar que a vida pode ser boa, mas nem por isso será um mar de rosas. O mundo não espera você aprender, ele te dá as chicotadas sem dó, tenha você aprendido ou não. E se não aprender, vai tomar chicotadas até que você morra ou quem sabe até que um dia, isso te mate.

Não veja seus pais como inimigos e não espere demais deles. Aprenda que você precisa ser a parte mais flexível desse relacionamento, para que a vida em família não se torne uma guerra. Seus pais vão continuar te educando segundo os valores deles. Se você aceita ou não, converse com eles, mas faça isso como gente. Discuta, debata, mas não grite, não xingue e não brigue. Além de você só ter um de cada, sem eles a vida seria muito pior. Não somente pela questão do dinheiro, mas principalmente porque você pode perder a melhor companhia que poderia ter na vida. É pra eles que a gente corre quando o cinto aperta e quando a coisa fica feia. Respeite e entenda que, por mais que você tenha nascido naquela casa e que ela seja também sua, os donos prioritários dela são seus pais. Aja e se comporte conforme as regras estabelecidas por eles. Quando você tiver a sua casa, vai entender que tudo custa dinheiro e trabalho, e vai querer que os outros se comportem e sigam as suas regras dentro da sua morada, para que tudo que você tenha conquistado seja respeitado e cuidado como se deve.

“Você me diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais.”

A banda podre da TI

Dizem que a TI está abarrotada de vagas. Muitas ofertas de emprego que estão apenas esperando gente “qualificada”. Aliás, esse é um choro antigo, ouço ele desde muito antes de começar meu curso técnico, em 2002. A TI tem vagas sobrando, mas pouca gente boa o bastante para preencher. E essa foi a mentira mais deslavada que eu venho ouvindo desde então, ou seja, há mais de 10 anos.

Desde que eu me interessei pela área até os dias de hoje, abriram centenas de escolas técnicas para dar ensino profissionalizante aos aspirantes a computeiros. Aos que queriam ir mais longe, abriram muitos cursos novos e diversas faculdades de ensino superior para suprir a demanda pelo crescente interesse na computação, vindo de homens e mulheres. Cursos mais especializados e menos acadêmicos, tudo para suprir a demanda do mercado por gente capacitada para exercer tais funções.

É claro que, por muitos anos seguidos eu vejo que entram, entre 30 e 50 alunos por vestibular, nos cursos de computação da minha universidade. E vejo que destes, apenas 5 ou 10 se formam por ano. Os cursos requerem do aluno bastante dedicação e constante aprendizado e atualização de seus conhecimentos. A computação é uma área bastante difícil de se atuar, pois é preciso saber de tecnologias velhas e novas, tudo ao mesmo tempo. Os empregadores costumam ver a gente da TI como chaves de fenda ambulantes: servem pra quase tudo dentro de uma empresa. Desde formatar uma máquina ou abrir uma impressora até projetar e desenvolver um sistema complexo, pois tudo deve ser possível e alcançável para um profissional da área. E é aí que o bicho pega…

Desde que voltei pra Caxias do Sul, fiquei 1 mês e meio procurando vagas de emprego. Eu também acho que foi bastante tempo desempregada, sabendo que as empresas choram e esperneiam atrás de trabalhadores da área. Porém, neste tempo todo, garimpei vagas como quem procura um filete de ouro no meio do Alaska. Depois de um certo tempo, encontrei meu veio de sorte, mas foi difícil. Oportunidades de emprego tem de monte, é verdade, mas vagas que preste tem muito poucas. E todas elas procuram especialistas e não apenas gente qualificada. Ou seja, aquela ladainha que ouvimos nos rádios e canais de televisão são lágrimas de crocodilo. Tem gente qualificada sim, muitos até com certificações e muitos diplomas, mas que esbarram nas ofertas esdrúxulas de emprego ou, na entrevista, quando perguntam se dominamos uma série de linguagens e tecnologias como se soubéssemos todas elas desde nossa primeira respiração no útero de nossa mãe. E muitas nem tem conexão entre si, o que demonstra que a vaga não é para alguém qualificado, é apenas pra um profissional randômico que possa saber todas elas juntas. E mesmo que saiba, nunca será no nível de exigência do empregador. Sabemos que quem quer ser especialista em tudo, acaba sendo especialista em coisa alguma, por isso procuramos aprender poucas coisas, mas com qualidade. Aí quando aparece uma vaga como: “Necessário saber com nivel pleno – SQL, Javascript, Java, .NET, ASP, PHP, Cobol, HTML e CSS. Ser DBA no Oracle é um diferencial” chega a doer. Deixam a vaga aberta por meses e meses, como se a miragem de um profissional com todas essas qualidades reunidas no seu nível de exigência pudesse se concretizar magicamente. Nós sabemos que isso é apenas fantasia, mas eles acreditam nesse conto de fadas como se essa pessoa realmente pudesse existir.

E sabe porquê a TI carece de profissionais especialistas? Porque com essa visão errônea, que muitas empresas tem, de que o profissional precisa dominar tudo, acabamos por aprender um pouco de cada assunto para não passarmos fome. Por um tempo isso funcionou, mas hoje é fácil passar fome trabalhando com TI. Nosso trabalho é bastante mal valorizado, porque antes de procurar um profissional, o Zé Mané prefere dar o serviço pra qualquer um que saiba ligar um computador, afinal, não quer gastar muito pra ter a solução. Aí ele acaba com um trabalho porco nas mãos e a certeza do prejuízo que terá para contratar alguém especialista que poderá consertar ou ter que refazer o serviço todo.

Pior ainda é o tipo de avaliação do trabalho do profissional de TI. Muitos calculam o salário conforme as horas parado em frente ao computador, como se fôssemos pagos pra ficar 8 horas diárias em frente ao Facebook olhando bobagens e nos divertindo. Outros preferem nivelar o salário pelos menos competentes e acabam colocando no mesmo saco os outros que se esforçam e fazem tudo certo. Aí ouço asneiras como “mas querida, teu salário não passa de R$ 2.000,00 pela CLT“. Claro que pelo regimento trabalhista é provável que não passe, mas aí o empregador se aproveita da legislação pra escravizar seus candidatos. Contrata um profissional que em carteira vai ter seu registro como um programador genérico, mas na vaga ele pede um especialista pleno em Ruby, Rails, Python, Django e Java (!!!) que saia produzindo como se tivesse nascido com o VIM aberto. Sei que haverá alguém que se submeterá a isso, seja porque sonha com um crescimento profissional que jamais virá nessa empresa, seja porque precisa pagar as contas no final do mês. O ruim é que isso contribui, infelizmente, pra desvalorização da TI como um todo e prejudica à todos nós.

Empregadores esquecem que grande parte de nós precisa pagar um curso numa universidade para ser qualificado. Esquecem que pagamos cursos e certificações para nos adaptarmos às exigências do mercado. Esquecem que passamos horas, dias a fio consumindo nosso tempo livre para ficarmos atualizados com o mundo e com as tecnologias inventadas todos os dias. E tudo isso CUSTA. Dinheiro, tempo e horas de descanso. Chega quase a ser pior que um professor, porque temos todo esse trabalho “extra-classe”, durante toda a nossa vida, que nunca é remunerado, mas é sempre exigido.

Então, empresas de meu Brasil varonil, PAREM COM ESSA LADAINHA. Parem com esse chororô, com essas lágrimas de crocodilo hipócritas e debochadas. Querem profissionais qualificados e competentes? PAGUEM POR ELES. Não me surpreende que muita gente troque a TI por áreas completamente diferentes, seja para fugir do estresse e pouca valorização do trabalho, seja pelos salários irrisórios que não retornam o que investimos em nossa educação e aprimoramento.

Se não quer pagar apropriadamente pelo serviço de alguém qualificado, faça você mesmo. Veja como é fácil saber tudo que você precisa e ainda receber uma merreca em troca por qualquer coisa que você faça. É ruim, não é? Eu também acho, por isso desabafei neste texto. Acho um absurdo que continuemos a ganhar salário de fome, trabalhar como condenados em campo de concentração e ainda ter que estudar como se não houvesse amanhã para não perdermos nosso emprego, em pleno século XXI.