Dorme agora, é só o vento lá fora…

Eu prometi pra mim mesma que não falaria sobre esse assunto aqui no blog. Prometi porque parece presunçoso e até arrogante, de minha parte, falar essas coisas. Entretanto, vejo que as relações nas famílias das pessoas que eu observo estão cada vez mais problemáticas. Ou o acesso à internet facilitou a regurgitação de “mimimi” por parte dessa galera que reclama demais de coisas que, com um pouco de maturidade, podemos ver facilmente como resolver. E como sabemos, o remédio que mais faz falta no mundo se chama “empatia”. Ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros antes de agir, pensar ou formular conceitos.

Há pessoas que já possuem idade adulta e ainda agem como adolescentes mimadinhos. Tal como parasitas, esperam que os pais corram atrás de tudo, comprem tudo e deixem tudo conforme seu refinado gosto de almofadinha. Acho revoltante esse comportamento, mas aí fico pensando que não existe somente um culpado nessa história. Uma criação torta pode acabar revelando um adulto que não vai conseguir viver com as próprias pernas sem ter muito sacrifício pela frente. Porém, ainda acho que certas coisas podem ser corrigidas sem muito sofrimento.

Saí de casa meio tarde até, com 24 anos. Amo minha família, cada um deles tem um lugar bem especial no meu coração que faço questão de guardá-los ali até o último dia da minha vida. O problema é que eles são muito ativos. Falam bastante (e alto), assistem televisão, mexem no computador, batem porta, brigam, brincam. Sempre foi assim e espero que seja assim pra sempre. O ruim é que me atrapalha na hora de estudar, de fazer um trabalho pra faculdade ou até mesmo algum freela. Eu não tenho grandes problemas com barulho, mas fala alta, portas que batem e televisão com volume alto me distraem facilmente. Eu ouço música, mas não gosto de volume alto, acho irritante. Aí a canção acaba não sendo o bastante para me afastar e me colocar em um plano alternativo onde eu só preste atenção no meu mundinho. E também, por fazer faculdade na área da computação, eu acabo servindo pra dar suporte o tempo todo com o PC da casa. E assim vai…

O motivo de eu sair foi porque eu precisava de paz pra poder trabalhar e estudar. A família é grande e a casa é pequena. Fica difícil exigir deles que ajam como monges tibetanos para que eu, unicamente e exclusivamente eu, possa estudar e trabalhar. Acho até meio ofensivo querer chegar e colocar esse tipo de banca. Tudo bem que eu moro aqui e é também a minha casa, mas tenho que respeitar a coletividade e os hábitos deles. Afinal, ninguém reclama dos meus.

Bom, aí entra aquela parte chata. As reclamações mais comuns que eu vejo por aí dos aborrescentes e até algumas pessoas em idade universitária é:
1) Não posso fazer o que eu quiser. Tenho que pedir permissão pra tudo.
Claro que não pode, tá pensando que tá onde? Na casa da Mãe Joana? E se tu tivesse um fedelho que quer fazer o que bem entende na casa que tu levou anos pra construir/comprar, mobiliar e deixar confortável. Deixaria ele fazer o que bem entende e ainda achar ruim? Acho que não.

2) Preciso dar satisfações pra onde vou, que horas volto e com quem eu volto.
Sério? Puxa, que problemão horrível! Um diálogo de, sei lá, 5 minutos pra dar essas informações e dizer “se precisar, me liga no celular” deve ser mesmo um sacrilégio. Capaz do parasita ainda ligar de madrugada pro pai/mãe ir buscar na festinha. Ora, por favor! Vá esfregar uma panela de polenta! Sabe o que significa dar essas informações como gente civilizada? Respeito, consideração e afeto.

3) Se eu fico longe de casa por um tempo fora do comum, meus pais ficam me ligando pra saber onde estou.
É, malditos paparazzis! Deixa de ser bunda mole e ligue pra avisar, quando vai ficar mais tempo na rua. Teus pais não querem te controlar como a marionete que você pensa que é. Estão preocupados com seu bem estar e com sua segurança. Mas é claro que é muito difícil para vossa majestade atender um telefonema de poucos minutos pra avisar que está bem, que está na casa de Fulano e que pretende voltar a tal hora.

4) Não me deixam ligar todos os meus eletrônicos e os deixar ligados pelo tempo que eu quero.
Fico imaginando que pra essas pessoas, recursos brotam. Simples assim. A eletricidade chega como quem não quer nada, vai passando pelos fios e quando menos se espera, a TV liga. Louco, né? Os mantimentos aparecem do nada nos armários, os remédios se repõem sozinhos nas prateleiras. Isso aqui não é Hogwarts, meu bem. Isso aqui é o mundo real, onde tudo custa dinheiro e trabalho. Onde o boleto de luz, água, IPTU, condomínio, aluguel e afins chega sempre todo mês. Aliás, se tem coisa que nunca erra o endereço da gente é cobrança. Então não, não pode ligar tudo ao mesmo tempo, deixar no standby a vida toda pra esperar que vossa majestade possa usar seus eletrônicos quando quiser. Ou liga apenas um, ou não liga nenhum.

5) Nunca compram o que eu peço de presente ou nunca entendem o que eu quero ganhar.
Essa realeza tem vida dura mesmo. Ô sacrilégio, chegar na hora de abrir o presente e ver que não era exatamente aquilo que você queria receber. Experimentou por acaso, uma coisa nova e revolucionária chamada “trabalhar”? É, ganhar salário no começo do mês pra comprar as suas quinquilharias. Não? Então feche essa latrina que você chama de boca e cale-se. Já dizia o ditado “cavalo dado não se olha os dentes”. Isso significa que você não deve reclamar de um presente ganhado, pois é uma bruta falta de educação e gratidão de sua parte por um ato que teve como origem, tentar agradar você.

6) Sempre reclamam do meu quarto, dizem que está sempre bagunçado.
Você não precisa ter TOC com organização, mas é bom manter seu quarto em ordem. Isso vai te ajudar no futuro, quando tiver responsabilidades maiores. Eu não sou um exemplo de organização, mas tive que aprender muito disso pra sobreviver sozinha. Eu já vivi a experiência de esquecer de pagar a conta de luz, ter a energia cortada e só tê-la religada no dia seguinte e com sorte. Quando essas coisas acontecem, a gente aprende na marra. Aprendemos a pensar adiante, a nos prevenir e manter nossas responsabilidades em dia.

7) Me cobram constantemente dedicação com meus estudos.
Nosso sistema educacional é arcaico, devo concordar. É complicado ser um peixe e ser constantemente julgado pela capacidade de subir em árvores. Acontece que, mesmo assim, se você não estudar as disciplinas propostas e tentar extrair delas o máximo de aplicação na vida real, você vai remar contra a correnteza até o final de seus dias. Nem vai passar no vestibular, só pra começar. Vagas que paguem bem e necessitem apenas do ensino médio, só em concurso público. Que é disputado e tem prova sobre aquilo que você deveria ter aprendido no colégio. Não adianta, estudar é preciso. Nos enobrece e nos torna pessoas donas de um julgamento muito melhor acerca dos assuntos que nos rodeiam. Você não precisa, necessariamente, de uma faculdade pra ser uma pessoa de sucesso, taí Bill Gates que não me deixa mentir. Entretanto, você vai precisar de muita dedicação e muito estudo daquilo que você quer ser. Bill Gates construiu uma fortuna em cima de sua ótima inteligência, perspicácia e capacidades empreendedoras. Na dúvida de suas habilidades, estude. Pode ser que, em algum semestre da faculdade, você descubra algo bom o bastante para fazer a diferença no mercado tão competitivo que temos hoje.

8) Quero fazer uma aula de <insira atividade aleatória>, mas meus pais não querem pagar.
Um ser humano em fase adolescente/adulta custa, por baixo, pelo menos R$900,00 mensais. Não é porque você não paga ou não vê o dinheiro, que não custa absolutamente nada. Você vive de luz? De amor? Seu computador roda por engrenagens? Creio que não. Se a aula que queres fazer não irá te acrescentar profissionalmente, isso pode esperar, sim. Pode esperar você arranjar um emprego e pagar por isso e por todas as outras coisas que quiser.

Essas são apenas alguns itens, pois já ouvi asneiras piores. Rebeldia não ajuda em nada, só piora as coisas. Não adianta se rebelar contra coisas que não são passíveis de rebelião. É muito melhor tirar proveito dessas lições, amadurecer e enxergar que a vida pode ser boa, mas nem por isso será um mar de rosas. O mundo não espera você aprender, ele te dá as chicotadas sem dó, tenha você aprendido ou não. E se não aprender, vai tomar chicotadas até que você morra ou quem sabe até que um dia, isso te mate.

Não veja seus pais como inimigos e não espere demais deles. Aprenda que você precisa ser a parte mais flexível desse relacionamento, para que a vida em família não se torne uma guerra. Seus pais vão continuar te educando segundo os valores deles. Se você aceita ou não, converse com eles, mas faça isso como gente. Discuta, debata, mas não grite, não xingue e não brigue. Além de você só ter um de cada, sem eles a vida seria muito pior. Não somente pela questão do dinheiro, mas principalmente porque você pode perder a melhor companhia que poderia ter na vida. É pra eles que a gente corre quando o cinto aperta e quando a coisa fica feia. Respeite e entenda que, por mais que você tenha nascido naquela casa e que ela seja também sua, os donos prioritários dela são seus pais. Aja e se comporte conforme as regras estabelecidas por eles. Quando você tiver a sua casa, vai entender que tudo custa dinheiro e trabalho, e vai querer que os outros se comportem e sigam as suas regras dentro da sua morada, para que tudo que você tenha conquistado seja respeitado e cuidado como se deve.

“Você me diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais.”